Na dúvida sobre como precificar conserto de celular, some a hora técnica, a peça com uma margem própria e o risco do serviço. O tipo de preço muda com a incerteza: bateria e conector costumam ter preço fechado, mas placa e aparelho molhado pedem diagnóstico antes, e aí o orçamento sai em duas etapas.
A conta da hora e da peça é parecida para todo serviço. O que muda de um conserto para outro é quanto você sabe do defeito no momento em que o cliente pergunta o preço.
A hora técnica: o número que entra em todo preço
A hora técnica é quanto a loja precisa receber por hora de bancada para pagar as contas e o seu trabalho. Some o que a loja gasta no mês (aluguel, luz, internet, ferramentas, contador e o seu salário) e divida pelas horas que você passa de fato consertando, não pelas horas que a loja fica aberta.
Exemplo: uma loja com R$ 6.000 de custo no mês e 120 horas de bancada tem hora técnica de R$ 50. Um serviço de meia hora custa R$ 25 só de mão de obra, antes de peça e margem.
A diferença entre horas abertas e horas de bancada é onde a conta costuma errar. Atendimento, orçamento, compra de peça e espera de cliente tomam o dia, e nenhuma dessas horas aparece no conserto.
Separe a margem da peça da margem do serviço
Peça e mão de obra pagam coisas diferentes, e misturar as duas esconde o problema quando o mês não fecha. A peça paga o que custou, o frete e a perda (a que chega com defeito, a que quebra na instalação). A mão de obra paga a hora técnica e o risco.
O conector é o caso que mostra isso: a peça custa pouco, e quase todo o preço é o tempo de desmontar, soldar e testar. Com margem só em porcentagem sobre a peça, o serviço sairia quase de graça.
Na OS e no orçamento, deixe peça e mão de obra em linhas separadas. O CDC pede que o orçamento discrimine "o valor da mão-de-obra, dos materiais e equipamentos a serem empregados" (art. 40), e no fim do mês dá para ver se o problema foi a hora ou a peça.
Três tipos de preço, conforme o que você sabe do defeito
| Tipo | Quando usar | Exemplos de serviço |
|---|---|---|
| Preço fechado | O defeito é visível ou testável na hora e o tempo é previsível | Troca de bateria, de tela, de conector com teste confirmado |
| Faixa de preço | O serviço é conhecido, mas o tempo varia com o modelo ou com o estado do aparelho | Conector em aparelho com oxidação leve, troca de câmera |
| Diagnóstico primeiro | O defeito não está confirmado ou pode estar em mais de um lugar | Aparelho que não liga, placa, aparelho molhado |
Exemplo: aparelho que não liga entra na sexta. O defeito pode ser o conector, a bateria ou a placa, e cada um tem um preço diferente. Dar um preço fechado no balcão é apostar.
Se for placa, ou a loja perde, ou o cliente recebe uma ligação pedindo mais dinheiro.
Na faixa de preço, escreva no orçamento o valor mínimo, o máximo e do que depende ("entre R$ 120 e R$ 180, conforme a oxidação encontrada na abertura"). O cliente aprova a faixa, e a loja não precisa voltar a negociar se ficar dentro dela.
Orçamento em duas etapas para placa e aparelho molhado
Quando o defeito não está confirmado, o orçamento sai em duas etapas, e o cliente aprova cada uma. Na primeira, ele aprova o diagnóstico (com ou sem valor). Na segunda, depois de você abrir e testar, ele aprova o conserto com o preço já fechado.
- Na entrada, registre na OS o defeito que o cliente relata e o que você testou com ele olhando.
- Diga o valor do diagnóstico, se cobrar, e o prazo para dar o preço do conserto.
- Depois de abrir, mande o orçamento do conserto com peça e mão de obra separadas e a validade.
- Só comece o conserto depois da segunda aprovação: serviço sem orçamento e autorização do cliente é prática abusiva (CDC, art. 39, VI).
Aparelho molhado tem um passo a mais: o risco de outra parte parar depois do conserto. Para isso existe o termo de autorização de reparo com risco, em que o cliente autoriza o procedimento sabendo que ele pode não dar certo.
Modelos de termo, inclusive o de reparo com riscoGarantia simples, troca de tela, bateria, conector, aparelho oxidado e autorização de reparo com risco, em PDF.Serviço de terceiro precisa estar no orçamento
Se a placa vai para um técnico de micro soldagem de fora, o custo dele precisa aparecer no orçamento que o cliente aprova. O CDC é direto sobre isso:
O consumidor não responde por quaisquer ônus ou acréscimos decorrentes da contratação de serviços de terceiros não previstos no orçamento prévio.
— CDC, art. 40, § 3º
Exemplo: a placa vai para o técnico de micro soldagem, e o custo dele não estava no orçamento aprovado. Esse valor fica com a loja. Por isso, quando há chance de terceirizar, a etapa de diagnóstico serve também para consultar o terceiro e trazer o preço dele para o orçamento do conserto.
O valor mínimo por atendimento
Todo aparelho que entra custa tempo antes de qualquer conserto: cadastrar o cliente, testar na entrada, fotografar, orçar, avisar quando está pronto e entregar. Em serviço rápido, como trocar uma película ou atualizar o sistema, esse tempo pode ser maior que o do próprio serviço.
Um valor mínimo por atendimento cobre isso. Escreva-o na tabela de preços e no orçamento, para o cliente saber antes.
Para a tabela não envelhecer, revise os preços quando o custo das peças que você mais usa mudar, e não só uma vez por ano. Com preço errado por meses, cada conserto do tipo errado tira um pouco da margem.
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